terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Andarilho: Precipício.

Ela estava paralisada na beira do parapeito. Seu coração batia ansioso por uma mistura de medo e desespero. Suas mãos tremiam e suavam. Seus pulmões bombeavam o ar profundamente tentando suportar os calafrios. Em sua mente uma pergunta se repetia "Seriam cinco andares suficientes?".
Fechou seus olhos enquanto dava os últimos passos, mas na escuridão de suas pálpebras vira o mais escuro precipício e por alguns milésimos sentirá uma estranha mistura de medo desesperador e de uma paz profunda. Inquietou se vira pai, mãe, primos, amigos, inimigos, dias tristes, dias felizes e nesses milésimos de segundos a vida lhe pareceu tão doce, como se derretesse em seus lábios e enchesse seus nervos de alegria pulsante.
Seus pés, cheios de arrependimento, pararam o movimento decadente. Já não tinha coragem de abrir os olhos e ver o que estava para acontecer. Muito menos conseguia obrigar a seus pulmões a soprar qualquer palavra de socorro.
Pequenos passos atravessavam o corredor seguido de um som agudo e estridente de uma voz familiar e desesperada a gritar: Não!!!! Assustada, a garota se vira deslizando de forma dolorosa seus pequenos pés na borda do parapeito. "É muito peso!" gritam os dedos, enquanto tentam suportar todo o peso da garota. As falanges estalam, finalmente escorregam e o pequeno corpo daquela garota de quase dezesseis anos é largado nas mãos da gravidade, que cruel força é esta que nem sequer permitiu um ultimo olhar entre mãe e filha.
Ela olha para cima, observando de onde caiu, se perguntando "Mãe? era você? Mãe, estou com medo! Cadê você?" Naquele pedaço da eternidade ela caia e caia se desesperando ao tentar colocar os pés no chão e descobrir que não havia nada lá.
Finalmente aquele milionésimo de eternidade acabou, revelando a resposta pra tão fatídica pergunta: Cinco andares são suficientes.
Um buraco vazio a céu aberto. Uma caixa de madeira cheia de sonhos e esperanças jazidos. Uma pequena multidão de sombras a espreitar o movimento descendente. Lamurias chorosas a se misturarem com vento. Uniformes empunhando pás. Uma mãe cravando suas unhas em desespero. Um pai suportando a dor de dois mundos que definham cravando cinco estacas em seu peito. Nenhum pai deveria ter que enterrar seus filhos.
O andarilho entra igreja anexa a um colégio e por todos os lados haviam alunos, professores e pais a cochicharem antes do inicio da missa. Alguns falavam sobre o pecado "Suicidas não vão pro céu, vão?" outros chorando tentando compreender "Mas ela era tão alegre!" uns poucos em como evitar o inevitável "Se ela fosse nossa amiga isso não teria acontecido, estaríamos lá pra ela" e a grande maioria apenas estava esperando aquilo terminar para voltarem ao aconchego de suas rotinas.
O fim chegara. Pessoas indo embora. O Andarilho, que nunca gostara muito de cerimônias litúrgicas, apenas esteve sentado se despedindo do futuro que aquela vida representaria. Despediu-se dos filhos da garota, dos amores que teria, do grande amor de sua vida, dos desafetos e daquela atemporal e estranha jornada chamada vida.
Sentado em um degrau, sozinho e pensando em tudo que já viu acabou pensando em Nietzsche e seu eterno retorno. Estaria essa garota presa para toda a eternidade naquela queda? Seria triste se em todas as vezes que o universo retornasse sua historia terminasse sempre naquele incompreensível momento. Gostaria dizer que não, mas na frente do desconhecido o devemos fazer é vivermos cheios de duvidas, mas procurando apenas uma resposta que possamos acreditar. Viva como se estivesse vivendo por toda sua eternidade!
E naqueles últimos degraus no fim daquela pequena escada o Andarilho pensou que em algum lugar no mundo uma musica estava tocando exatamente no momento que aquela garota tocou o chão.

"Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe
O que aconteceu...

Ela se jogou da janela
Do quinto andar
Nada é fácil de entender..."

Essa musica sempre me lembrará dessa garota desconhecida, que nunca ouvi a voz, nuca vi o rosto, senti o seu toque e muito menos pude velejar pelos encantos de seu mundo- Pensou o Andarilho enquanto caminhara pelo rios negros da cidade, seguindo apenas o fluxo suas lembranças.

domingo, 21 de novembro de 2010

Mansão dos sonhos: Realidade

Uma garota qualquer de olhos castanhos claros, corpo franzino, estatura mediana, seios pequenos, rosto comum, cabelos curvos na altura dos ombros. Para muitos isso seria motivo suficiente para simplesmente virar o rosto e voltar a atenção para qualquer coisa de maior raridade. Mas quantas pessoas não se encantariam com sua presença, palavras carinhosas, olhares meigos, sonhos fantasticos e tantos outros atributos singulares de uma exentricidade pessoal.
Esta noite, como em muitas outras, ela adentra o quarto do seu namorado cautelosamente apenas para sentar ao seu lado e vê-lo dormir. Para muitos pode parecer algo bobo de se fazer, mas nas suas noites de insônia isso lhe tras um estranho conforto, uma mistura de protecionismo maternal e amor em demasia. Mas dessa vez ele estava encolhido na cama abraçando firmemente seu proprio corpo enquanto lagrimas vazavam ininterruptas. Apreensiva, aconchegou a cabeça de seu amado no calor do seu colo.
Calor familiar o resgata do seu proprio abismo. Caricias no seu rosto, dedilhar dançante em seus labios. Olhos finalmente se abrem, escapando do desespero que devorava a sanidade do garoto, agora já crescido. Seu despertar foi recebido com a mais simples,porém mais significativa palavra, quando alimentada por uma torrente de emoções de qualquer natureza. E ela desabrochou um sorriso e disse: "Oi".
Olhando para ela enchugando o que restou de suas lagrimas respondeu: "Oi, eu tive um sonho muito estranho e você estava nele". Nos minutos seguintes, ainda deitado no colo de sua salvadora, lhe contou sobre os automatos,a menina, engrenagens e todo o resto.
Tomar banho juntos sempre ajudou em grande maioria das vezes. É engraçado como alguns minutos, as vezes horas, debaixo da agua corrente dão a impressão que suas magoas, desgostos e frustrações estão sendo levadas ralo abaixo. Mas para aquele casal, como tantos outros espalhados no mundo, estar sob aquele chuveiro abraçados sentindo o calor de seus corpos em meio a agua gélida é como ter encontrado um porto seguro, uma praia ensolarada em meio a um mundo frio e solitario. Ali podiam momentaneamente assumirem suas fraquesas, chorar pela solidão, pelos sonhos despedaçados, pelo amor que nunca tiveram, pelos dias que o universo parecia lhes cuspir a face.

Em uma caixa metalica de poucos metros quadrados esta uma mulher de trages finos a observar o display vermelho ofuscante a passar os numeros com incomoda lentidão. Ninguem imagina que não existe numero algum ali, são apenas pequenas barras luminosas a mudar de forma e nessa dança é a nossa mente que cria uma ilusão de realidade, simbolos e signos que representam o que jamais esteve ali.
Felizmente ninguém compartilhou sua jornada naquele incomodo cubiculo pelos onze andares que se seguiram. Ah como ela sempre odiou compartilhar esse pequeno espaço com outras pessoas e seus perfumes intoxicantes, conversas inadequadas ao celular, olhares questionaveis para seu busto e principalmente a cordialidade incomoda de algumas pessoas que insistem em começar conversas em um percurso de miséros segundos, até porque são raros os individuos que conseguem capturar a atenção com algumas poucas palavras.
Portas se abrem e seus passos preenchem o corredor sem vida, se interrompendo diante de uma porta cinza que lhe custara uma pequena fortura assim como todo o resto do seu consultório. Mais uma porta a ser aberta e lá estão as coxas voluptuosas de sua secretaria a lhe esperar, nunca fora uma mulher de se interessar por homens, sempre achou que lhes faltavam doses de sensibilidade ou passavam tempo demais tentando serem obras de masculinidade fálica a entender o que acontece entre as curvas sinuosas de um coração feminino.
Finalmente sentada em sua mesa e a sua frente um rapaz de rosto cansado, um tanto quanto insone, de expressão indiferente e corpo atirado confortavelmente na poltrona respondendo mecânicamente as perguntas do convivio básico, que geralmente variam entre bom dia e tudo bem, até o momento que a secretária invade graciosamente o consultório depositando um prontuario médico nas mãos da Neuropsicóloga, que da uma breve revisada na condição do paciente, que concistia em um caso raro de Amnésia por perda da memória episodica causada por um traumatismo craniano e que não se sabia de nada sobre a natureza do aciedente além de que o rapaz em questão fora encontrando caido próximo a um latão de lixo em um beco qualquer.
A mulher apoia seus cotovelos sobre a mesa fitando o paciente com seus olhos cor de amêndoa e pergunta "Na consulta passada você mencionou que havia sonhado antes de acordar na UTI do hospital, você poderia conta-lo novamente". O rapaz respirou fundo, se afundando ainda mais nos espaços acolchoados da poltrona, e narrou o que mais parecia um conto surreal onde se misturavam a morte a vida, que muito parecia com o nascimento de universos, e uma estranha mansão.
Acordar olhando para um teto branco e reconhecer os estranhos aparelhos ao seu redor juntamente com o som dos bipes e mecanismos de diversas maquinas em um quarto igualmente branco de aparência um tanto cavernosa, considerando a quantidade de cantos escuros e o abarrotamento de sistemas de suporte de vida, é no minimo assustador, mas perceber que não sabe seu priprio nome, como veio parar ali e o que vai acontecer nas horas seguintes é algo que desperta um desespero aterrador no coração dos mais resilentes. Felizmente sua cabeça doia demais para se preocupar com qualquer coisa além de voltar a mergulhar nas profundezas dos seus sonhos.
O rélogio de parede toca uma daquelas melodias classicas que todo mundo reconhece e se aconchega nos seus tons, mas que na verdade a grande maioria das pessoas não sabem de que musica se trata, pondo um fim a consulta. E mais uma vez todo aquele espetaculo de cordialidade natural do convivio humano se realiza terminando em um até logo. Portas afrante, elevador abaixo, algumas esquinas a direita outras a esquerda e finalmente o rapaz esta sentando em um banco qualquer em uma pequena praça, daquelas sem grande importancia cujo as familias antigamente se reuniam para trocar conversas e que hoje ou servem como ponto para a venda de drogas ou para idosos investirem o que lhes sobrou de vida em caminhadas desinteressadas, observando o tempo passar e o sol se esconder atrás do horizonte permeando o céu com feixes de luz alaranjada que vão se desfazendo a medida que a escuridão avança.

sábado, 12 de junho de 2010

Mansão dos sonhos: Engrenagem

Batimentos cardíacos acelerado. A escuridão daquelas pálpebras recede e olhos se abrem. Visão turva e descompensada. Um olhar bêbado para o mundo. O ranço da cerveja, vodka, uísque e outro tanto de bebidas de nomes surreais, domina sua boca juntamente com o refluxo incomodo preenchendo sua garganta, substituindo momentaneamente o gosto incomodo do ranço pelo gosto caustico de álcool e sanduíche barato.
O rapaz se levanta do seu canto de parede imundo, usando qualquer objeto próximo como muleta, até recobrar debilmente seu equilíbrio e cambalear de volta para casa. Santuário opaco a muito sem vida. Pequeno kitnet de surrealidade plástica e moveis desgastados. Chave gira. Portas se abrem. Em seu caixão na realidade o jovem entra. Trancado no seu mundo começa a dedilhar sua modesta estante de cento e poucos livros, na verdade é a única coisa de valor em toda sua vida, procurando uma idéia que pudesse regurgitar, isso porque mesmo já tendo lido todos ainda gostava de olhar para suas capas e relembrar o prazer da leitura e a angustia das idéias. “A escolha da madrugada foi “Na Sombra da Maioria Silenciosa” de Baudrillard, mas enquanto olhava para a capa branca do livro a única coisa que lhe veio à mente foi a celebre, mas não tão conhecida, frase de George Orwell:” Se quiser uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando em um rosto humano para sempre". Olhos reviram. Sono e embriagues de peso titânico. Olhos se fecham. O corpo desaba.
A porta se abre lentamente para o garoto, que a trespassa esquecendo a escuridão opressiva deixada para trás. Por dentro a mansão é um lugar gigantesco não em altura, mas em comprimento, com corredores quase infinitos cheios de quartos. Andar ali é como estar perdido no tempo e espaço. Sensação perpetua de não ter controle para onde se esta indo. Ainda mais estranho são as portas dos quartos, algumas sem numeração e maçaneta outras com números riscados e muito bem lacradas.
A criança caminha sem rumo e sem compreensão do que estava acontecendo, estava sendo guiado pelo acaso ou pelo destino até um rumo qualquer. Suas pernas apenas seguem a vontade do desconhecido e o impulso dos curiosos. Finalmente os corredores deixam de ser preenchidos pelo ecoar de passos. Pequenos pés em frente a uma porta negra, envelhecida, entre aberta, sem numeração especifica e dotada de um magnetismo irresistível. Se aproxima lentamente, movido pela sua curiosidade e repelido pelo medo do conteúdo daquele quarto. Resistindo ao choque continuo de seus calafrios abre a porta lentamente, liberando um ranger rouco e abafado, se deparando com um quarto vazio, mas ainda assim deu os últimos passos para dentro. A porta se fecha violentamente. Um trovão entre paredes.
No escuro pequeno palco se ilumina revelando duas entidades humanóides, assexuadas de feições abstratas e cor amalgamada de joelhos ao chão. Engrenagens em suas nucas começam a girar movendo fios e juntas. Ambas se levantam de forma desajeitada. Face a Face. Suas mãos se estendem buscando o calor de outro ser. O afago de outra existência. A necessidade da certeza que a solidão nunca é eterna. Mas não encontram nada além do vazio egocêntrico de quem não possui nada a doar, apenas e limitadamente a exigir, a desejar. Uma frieza de tamanho incalculável.
Dedos se tornam garras. O toque se transforma em violência que dilacera fina película de pele, revelando conteúdo incompreensível de artérias putrefatas e sangue colérico fervente e incessante jorrando pelos machucados incuráveis e as cicatrizes mal cuidadas. Com olhos vazando uma mistura aquosa de lagrimas e sangue os autômatos param seus movimentos e deixam seus corpos atingirem o chão, os transformando em frangalhos. Engrenagens param de girar. O escuro reina.
De forma súbita a luz se refaz dos olhos puxados de uma pequena menina em meio a fumaça e ao cheiro de carne queimada. O mundo, as plantas, os animais e até o seio de sua mãe, que a aquece em meio ao frio das cinzas, tem o cheiro da morte. Ela se encolhe nos braços de sua progenitora, que tenta esconder suas lagrimas e desespero cantando antigas canções de ninar, pedindo a Deus, qualquer um deles, uma chance de vida. O frio vai embora dando lugar a uma súbita massa de calor e luz. Os sons de sirene se tornam mudos e os odores se dissipam em meio a sopro de vento quente. Maravilhada a pequena menina engole seu choro e estica os braços, escapando do afago protetor de sua mãe, buscando sua própria vida. No seu rosto um sorriso alegre, nos seus olhos a esperança, em seu coração o maravilhar, na sua mente alguém ouviu sua suplica e assim a luz a tudo abraçou. Da menina e sua mãe sobraram apenas as cinzas e o negativo impresso nas sobras de uma parede qualquer, uma pequena sombra de braços abertos esquecida no tempo.
Ali esta ela, sentada em seu canto escuro de parede, olhando fixamente para a porta lacrada do que deveria ser seu quarto. Quantas vezes, quantas horas, quantas noites esteve ali sentada ouvindo os gritos no andar de baixo, seguidos sempre por uma sequencia de sons angustiantes: "Gritos, coisas quebrando, gritos, portas sendo fechadas violentamente, gritos, carro sendo ligado, choro, carro acelerando", sem jamais pode fazer algo além de abafar seus ouvidos com as mãos e morder seus lábios, para não deixar o choro escapar. Na manha seguinte tudo estavam sentados ao redor da pequena mesa comendo pão com manteiga, ovos e achocolatado. Sorriam e jogavam conversa fora. Mas a menina ja sabia que terminaria esse dia como tantos outros, encarando uma porta.
Alguns anos depois afundava sua cabeça contra um travesseiro e gritava o mais alto que podia, mas jamais voltou a encarar a porta ou a se tremer em um canto de parede. Após uma década apenas ligava seu som portátil no volume máximo, fechava os olhos, fingindo estar em outro lugar, e enxugava a leve umidade em seus olhos.
Sentado em seu canto de parede escuro, o garoto apenas chora e mergulha seus pensamentos nos rios de sangue, encharcando seus olhos de lagrimas silenciosas. Mais uma vez a pequena caixa se abre: "Sofrer é quase um destino, você sabe muito bem disso. Mas o interessante são essas pequenas engrenagens que movem a tão amada humanidade. Deve ter sentido uma tristeza nos últimos momentos da pequena menina, mas se soubesse que seu pai, em um país não tão distante, escravizou outros povos, estuprou mulheres, fuzilou crianças e velhos sentiria o mesmo pesar? Por mais que diga, o fardo das decisões dos velhos sempre recai nas costas de suas crianças e assim mais engrenagens começam a girar em ritmo sincrônico, digno do mais exímio relojoeiro.
Não faça nenhum dos seus discursos moralistas, sabe muito bem quantas vidas foram aniquiladas em nome de Deus, da ciência, do amor, do ódio, da democracia, da liberdade, da superioridade, da moral, de toda e qualquer tirania, tudo o que possui é feito de sonhos despedaçados, esperança e sangue coagulado.
Se não acredita, olhe para as pessoas, consumindo umas as outras como um produto qualquer, nunca pensam que podem mudar para melhor, fazê-las crescerem mutuamente. Apenas sugam e se destroçam de forma automata, muito similar a marionetes submissas a uma engrenagem mestra. Continua sem acreditar não é? então coloque as mãos atrás de sua cabeça e pense o porquê de todas as tragédias, no fundo você também sabe, mas prefere simplesmente ignorar."
De maneira temerosa o garoto leva a mão a sua nuca e ao explorar sua cabeça lentamente sente o estranho mecanismo a girar sincronicamente com o seus pensamentos. Assustado, ele grita em meio da escuridão sufocante.



"Em algum lugar no mundo uma criança esta encolhida em um canto de parede confusa, sozinha, amedrontada e as vezes faminta. Milhões de pais são incapazes de perceberem, a maioria simplesmente não querem, as suplicas silenciosas de suas crianças apedrejadas. O lar não passa de uma bolha alimentada pela bem aventurada ignorância, já que qual pai deseja saber que são incapazes de dar a felicidade que sempre sonharam para

sábado, 5 de junho de 2010

Mansão dos sonhos: Prólogo.

Um corpo solitário se encontra largado em gramado caloroso. Sob a sombra de uma mangueira de tamanho majestoso. Abra os olhos menino, se dispersa da grama solitária e da sombra aconchegante e olhai o céu, olhai aquilo que descansa atrás das tuas pálpebras cansadas e dos teus sonhos desconfigurados. O pequeno ser se levanta cambaleante removendo o selo de seus olhos e observa além de sua sombra. Céu de brilho esplendoroso. Um sol que se esconde outro que se revela. Estrelas a nascer e tantas outra a morrer, em uma explosão de poeira cósmica multicolorida que alimenta o berço do universo. Maravilhado o garoto tira de sua pequena caixa um diminuto, porém, significativo fragmento de realidade: "Nós todos somos conjunturas atômicas, pequenos fragmentos de vida unidos em organelas em prol da existência. Se o big bang realmente aconteceu, creio que todos nós um dia já fomos uma única existência, deve ter sido tão solitário e ao mesmo tempo não conhecíamos o sofrimento, talvez, quem sabe, nós éramos deus"
Uma voz suave, de tom quase materno, interrompe o fluxo de sorrisos e lagrimas daquele céu estupefante. Menino, olhai pra quem tu é. Olhai para os eternos significados e vê onde teu sorriso nasceu, teu chorar descansa, tua alegria reside, teus medos se escondem e tua tristeza canta. De olhos fechados a criança se encolhe e encontra um pequeno ponto de forma familiar no espaço mais distante na escuridão de suas pálpebras. Se esforça de braços esticados, de passos atrapalhados, com o coração retumbando e lábios dormentes na tentativa de abraçar aquele lugar perdido em sua escuridão.
Cansado e nas profundezas de seu vazio o garoto caminha sempre de olhos fechados em busca do pequeno ponto de calor. Joelhos vão ao chão. Mão tremula esticada clamando por seu destino. Tão longe. Tão cansado. Vento que corta. Treva que atormenta. Vazio tão gélido que cerra os dentes e atravanca maxilar. Sofrer imaginário que tortura a vontade da pequena criatura. A consciência se esvai. Coração perde forças. Olhos permanecem cerrados. Morte fantasiosa de neurônios destroçados.
Pequena caixa que estremece, em pequeno surto de realidade, se mostrando de forma compulsiva quase indesejada e de vontade própria.
"Sabe, poderia apenas abrir meus olhos, dizer adeus a este meu pequeno ponto, que a maioria das pessoas chamariam de esperança. Não vejo exatamente assim, esperança nunca lhe deixará morrer, mas dificilmente fará toda a dor sumir. Ainda assim estamos todos sozinhos quando fechamos os olhos todas as noites e rapidamente abrimos pelo simples medo de morrer, para olhar para um mundo que de certa forma nos aceita e de outras tantas nos oprime. É como acordar de um sonho tão bom que o mundo é apenas um ciclo de sofrimento, mas ao mesmo tempo é bom saber que depois dos pesadelos algo estará nos esperando aqui fora. Mas o que realmente acho é que preciso morrer mais um pouquinho ou talvez aceitar que já estou morto a muito tempo e assim, talvez, consiga ver o horizonte além da escuridão dessas pálpebras"
Iluminar de girasóis. Doce cheiro de violetas. Calor terno. Acariciar de vento matinal. Olhos se abrem assustados. Corpo que se ergue de volta a vida. A sua frente uma grande mansão rodeada por enorme jardim de plantas conhecidas, desconhecidas, inomináveis, inexistentes. Janelas a reluzir apenas o reflexo de incertezas imediatas. Pequena mão a bater em gigantesca porta de madeira ao ritmo de um coração apaixonado. Não se ouve mais a madeira, apenas o coração gritante do angustiado menino que intoxica seus ouvidos a cada nova batida, seja com o punho ou com o coração.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Menina dos Sonhos

Sentada em alto pedestal, mãos pequenas, dedos finos a pincelar, a desenhar, cores firmes, tons inexistentes, contornos disformes, pouco a pouco dentro de um molde infindável, talvez até inimaginável. Corpo largado sobre próprio peso, face emburrada, lábios cerrados, pernas inquietas, ainda falta a perfeição no maravilhoso. A imagem vira borrão. A pequena desce e caminha inquieta e sem rumo, se senta e olha o vazio branco, ou a construção imaginaria, seus dedos anseiam pela dança em tela branca. Mas olhos pesados, costas cansadas, e peito apertado lhe pedem descanso. Assim se deixa cair em constructo de nuvens e abraça outro mundo.
Horas, dias e talvez meses venham a passar. Acorda. Mãos ansiosas em sua delicadeza, pequenos dedos inaudíveis a cantar e assim oitenta e oito teclas dão voz a sua melodia. Emburrada descansa o queixo em mão inerte. Olhos nas paginas ignora toda a simbologia. Só vê o branco. Quer existir em acordes, tons e sinfonia. Cansaço falho de autocrítica cruel lhe atira na cama fecha os olhos se odeia, se ama, até no sono cair.
Dessa vez sonha. Patos voam, mas não tão bem. Patos nadam, mas não tão bem. Patos pescam, mas não tão bem. Se sente pato que sabe pintar, mas não tão bem. Se sente pato que sabe tocar, mas não tão bem. Se sente pato que sabe pensar, mas não tão bem. Delírio novo, longe no céu, caminho longo até a lua e la embaixo apenas pequenos pontinhos. Ali entre nuvens e estrelas sente a solidão de quem ainda não chegou ao destino e não possui companhia. Teme continuar a viagem e as estrelas não bastarem como companhia. Teme voltar e não ser ninguém ou talvez apenas mais alguém.
Acorda e chora em prantos, raivosa, incerta. Senta em seu costumeiro banco entre teclas, linhas, pensamentos e para. Apenas observa.
Menina dos sonhos, menina de sonhos. Pequenos pés a caminhar deixando pegadas em areia fina que o mar do tempo há de apagar. Teima a baixar os olhos para medir a profundidade dos seus passos, que acaba perdendo a beleza do caminho, as promessas do horizonte. Seus dedos querem dançar, querem cantar, sua idéia te escapar. Abraça o peito, o coração, aquieta os temores, se divirta com o seu pulsar.
Viva a vida pela sua vida, não por fins ou começos, carências ou egocentrismos, apenas pelo prazer das linhas, melodias e pensamentos, tudo junto em um só momento.




Obs: Dedicado a uma trollzinha de clava atômica