Ela estava paralisada na beira do parapeito. Seu coração batia ansioso por uma mistura de medo e desespero. Suas mãos tremiam e suavam. Seus pulmões bombeavam o ar profundamente tentando suportar os calafrios. Em sua mente uma pergunta se repetia "Seriam cinco andares suficientes?".
Fechou seus olhos enquanto dava os últimos passos, mas na escuridão de suas pálpebras vira o mais escuro precipício e por alguns milésimos sentirá uma estranha mistura de medo desesperador e de uma paz profunda. Inquietou se vira pai, mãe, primos, amigos, inimigos, dias tristes, dias felizes e nesses milésimos de segundos a vida lhe pareceu tão doce, como se derretesse em seus lábios e enchesse seus nervos de alegria pulsante.
Seus pés, cheios de arrependimento, pararam o movimento decadente. Já não tinha coragem de abrir os olhos e ver o que estava para acontecer. Muito menos conseguia obrigar a seus pulmões a soprar qualquer palavra de socorro.
Pequenos passos atravessavam o corredor seguido de um som agudo e estridente de uma voz familiar e desesperada a gritar: Não!!!! Assustada, a garota se vira deslizando de forma dolorosa seus pequenos pés na borda do parapeito. "É muito peso!" gritam os dedos, enquanto tentam suportar todo o peso da garota. As falanges estalam, finalmente escorregam e o pequeno corpo daquela garota de quase dezesseis anos é largado nas mãos da gravidade, que cruel força é esta que nem sequer permitiu um ultimo olhar entre mãe e filha.
Ela olha para cima, observando de onde caiu, se perguntando "Mãe? era você? Mãe, estou com medo! Cadê você?" Naquele pedaço da eternidade ela caia e caia se desesperando ao tentar colocar os pés no chão e descobrir que não havia nada lá.
Finalmente aquele milionésimo de eternidade acabou, revelando a resposta pra tão fatídica pergunta: Cinco andares são suficientes.
Um buraco vazio a céu aberto. Uma caixa de madeira cheia de sonhos e esperanças jazidos. Uma pequena multidão de sombras a espreitar o movimento descendente. Lamurias chorosas a se misturarem com vento. Uniformes empunhando pás. Uma mãe cravando suas unhas em desespero. Um pai suportando a dor de dois mundos que definham cravando cinco estacas em seu peito. Nenhum pai deveria ter que enterrar seus filhos.
O andarilho entra igreja anexa a um colégio e por todos os lados haviam alunos, professores e pais a cochicharem antes do inicio da missa. Alguns falavam sobre o pecado "Suicidas não vão pro céu, vão?" outros chorando tentando compreender "Mas ela era tão alegre!" uns poucos em como evitar o inevitável "Se ela fosse nossa amiga isso não teria acontecido, estaríamos lá pra ela" e a grande maioria apenas estava esperando aquilo terminar para voltarem ao aconchego de suas rotinas.
O fim chegara. Pessoas indo embora. O Andarilho, que nunca gostara muito de cerimônias litúrgicas, apenas esteve sentado se despedindo do futuro que aquela vida representaria. Despediu-se dos filhos da garota, dos amores que teria, do grande amor de sua vida, dos desafetos e daquela atemporal e estranha jornada chamada vida.
Sentado em um degrau, sozinho e pensando em tudo que já viu acabou pensando em Nietzsche e seu eterno retorno. Estaria essa garota presa para toda a eternidade naquela queda? Seria triste se em todas as vezes que o universo retornasse sua historia terminasse sempre naquele incompreensível momento. Gostaria dizer que não, mas na frente do desconhecido o devemos fazer é vivermos cheios de duvidas, mas procurando apenas uma resposta que possamos acreditar. Viva como se estivesse vivendo por toda sua eternidade!
E naqueles últimos degraus no fim daquela pequena escada o Andarilho pensou que em algum lugar no mundo uma musica estava tocando exatamente no momento que aquela garota tocou o chão.
"Estátuas e cofres
E paredes pintadas
Ninguém sabe
O que aconteceu...
Ela se jogou da janela
Do quinto andar
Nada é fácil de entender..."
Essa musica sempre me lembrará dessa garota desconhecida, que nunca ouvi a voz, nuca vi o rosto, senti o seu toque e muito menos pude velejar pelos encantos de seu mundo- Pensou o Andarilho enquanto caminhara pelo rios negros da cidade, seguindo apenas o fluxo suas lembranças.
Nenhum comentário:
Postar um comentário