domingo, 21 de novembro de 2010

Mansão dos sonhos: Realidade

Uma garota qualquer de olhos castanhos claros, corpo franzino, estatura mediana, seios pequenos, rosto comum, cabelos curvos na altura dos ombros. Para muitos isso seria motivo suficiente para simplesmente virar o rosto e voltar a atenção para qualquer coisa de maior raridade. Mas quantas pessoas não se encantariam com sua presença, palavras carinhosas, olhares meigos, sonhos fantasticos e tantos outros atributos singulares de uma exentricidade pessoal.
Esta noite, como em muitas outras, ela adentra o quarto do seu namorado cautelosamente apenas para sentar ao seu lado e vê-lo dormir. Para muitos pode parecer algo bobo de se fazer, mas nas suas noites de insônia isso lhe tras um estranho conforto, uma mistura de protecionismo maternal e amor em demasia. Mas dessa vez ele estava encolhido na cama abraçando firmemente seu proprio corpo enquanto lagrimas vazavam ininterruptas. Apreensiva, aconchegou a cabeça de seu amado no calor do seu colo.
Calor familiar o resgata do seu proprio abismo. Caricias no seu rosto, dedilhar dançante em seus labios. Olhos finalmente se abrem, escapando do desespero que devorava a sanidade do garoto, agora já crescido. Seu despertar foi recebido com a mais simples,porém mais significativa palavra, quando alimentada por uma torrente de emoções de qualquer natureza. E ela desabrochou um sorriso e disse: "Oi".
Olhando para ela enchugando o que restou de suas lagrimas respondeu: "Oi, eu tive um sonho muito estranho e você estava nele". Nos minutos seguintes, ainda deitado no colo de sua salvadora, lhe contou sobre os automatos,a menina, engrenagens e todo o resto.
Tomar banho juntos sempre ajudou em grande maioria das vezes. É engraçado como alguns minutos, as vezes horas, debaixo da agua corrente dão a impressão que suas magoas, desgostos e frustrações estão sendo levadas ralo abaixo. Mas para aquele casal, como tantos outros espalhados no mundo, estar sob aquele chuveiro abraçados sentindo o calor de seus corpos em meio a agua gélida é como ter encontrado um porto seguro, uma praia ensolarada em meio a um mundo frio e solitario. Ali podiam momentaneamente assumirem suas fraquesas, chorar pela solidão, pelos sonhos despedaçados, pelo amor que nunca tiveram, pelos dias que o universo parecia lhes cuspir a face.

Em uma caixa metalica de poucos metros quadrados esta uma mulher de trages finos a observar o display vermelho ofuscante a passar os numeros com incomoda lentidão. Ninguem imagina que não existe numero algum ali, são apenas pequenas barras luminosas a mudar de forma e nessa dança é a nossa mente que cria uma ilusão de realidade, simbolos e signos que representam o que jamais esteve ali.
Felizmente ninguém compartilhou sua jornada naquele incomodo cubiculo pelos onze andares que se seguiram. Ah como ela sempre odiou compartilhar esse pequeno espaço com outras pessoas e seus perfumes intoxicantes, conversas inadequadas ao celular, olhares questionaveis para seu busto e principalmente a cordialidade incomoda de algumas pessoas que insistem em começar conversas em um percurso de miséros segundos, até porque são raros os individuos que conseguem capturar a atenção com algumas poucas palavras.
Portas se abrem e seus passos preenchem o corredor sem vida, se interrompendo diante de uma porta cinza que lhe custara uma pequena fortura assim como todo o resto do seu consultório. Mais uma porta a ser aberta e lá estão as coxas voluptuosas de sua secretaria a lhe esperar, nunca fora uma mulher de se interessar por homens, sempre achou que lhes faltavam doses de sensibilidade ou passavam tempo demais tentando serem obras de masculinidade fálica a entender o que acontece entre as curvas sinuosas de um coração feminino.
Finalmente sentada em sua mesa e a sua frente um rapaz de rosto cansado, um tanto quanto insone, de expressão indiferente e corpo atirado confortavelmente na poltrona respondendo mecânicamente as perguntas do convivio básico, que geralmente variam entre bom dia e tudo bem, até o momento que a secretária invade graciosamente o consultório depositando um prontuario médico nas mãos da Neuropsicóloga, que da uma breve revisada na condição do paciente, que concistia em um caso raro de Amnésia por perda da memória episodica causada por um traumatismo craniano e que não se sabia de nada sobre a natureza do aciedente além de que o rapaz em questão fora encontrando caido próximo a um latão de lixo em um beco qualquer.
A mulher apoia seus cotovelos sobre a mesa fitando o paciente com seus olhos cor de amêndoa e pergunta "Na consulta passada você mencionou que havia sonhado antes de acordar na UTI do hospital, você poderia conta-lo novamente". O rapaz respirou fundo, se afundando ainda mais nos espaços acolchoados da poltrona, e narrou o que mais parecia um conto surreal onde se misturavam a morte a vida, que muito parecia com o nascimento de universos, e uma estranha mansão.
Acordar olhando para um teto branco e reconhecer os estranhos aparelhos ao seu redor juntamente com o som dos bipes e mecanismos de diversas maquinas em um quarto igualmente branco de aparência um tanto cavernosa, considerando a quantidade de cantos escuros e o abarrotamento de sistemas de suporte de vida, é no minimo assustador, mas perceber que não sabe seu priprio nome, como veio parar ali e o que vai acontecer nas horas seguintes é algo que desperta um desespero aterrador no coração dos mais resilentes. Felizmente sua cabeça doia demais para se preocupar com qualquer coisa além de voltar a mergulhar nas profundezas dos seus sonhos.
O rélogio de parede toca uma daquelas melodias classicas que todo mundo reconhece e se aconchega nos seus tons, mas que na verdade a grande maioria das pessoas não sabem de que musica se trata, pondo um fim a consulta. E mais uma vez todo aquele espetaculo de cordialidade natural do convivio humano se realiza terminando em um até logo. Portas afrante, elevador abaixo, algumas esquinas a direita outras a esquerda e finalmente o rapaz esta sentando em um banco qualquer em uma pequena praça, daquelas sem grande importancia cujo as familias antigamente se reuniam para trocar conversas e que hoje ou servem como ponto para a venda de drogas ou para idosos investirem o que lhes sobrou de vida em caminhadas desinteressadas, observando o tempo passar e o sol se esconder atrás do horizonte permeando o céu com feixes de luz alaranjada que vão se desfazendo a medida que a escuridão avança.

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