sábado, 12 de junho de 2010

Mansão dos sonhos: Engrenagem

Batimentos cardíacos acelerado. A escuridão daquelas pálpebras recede e olhos se abrem. Visão turva e descompensada. Um olhar bêbado para o mundo. O ranço da cerveja, vodka, uísque e outro tanto de bebidas de nomes surreais, domina sua boca juntamente com o refluxo incomodo preenchendo sua garganta, substituindo momentaneamente o gosto incomodo do ranço pelo gosto caustico de álcool e sanduíche barato.
O rapaz se levanta do seu canto de parede imundo, usando qualquer objeto próximo como muleta, até recobrar debilmente seu equilíbrio e cambalear de volta para casa. Santuário opaco a muito sem vida. Pequeno kitnet de surrealidade plástica e moveis desgastados. Chave gira. Portas se abrem. Em seu caixão na realidade o jovem entra. Trancado no seu mundo começa a dedilhar sua modesta estante de cento e poucos livros, na verdade é a única coisa de valor em toda sua vida, procurando uma idéia que pudesse regurgitar, isso porque mesmo já tendo lido todos ainda gostava de olhar para suas capas e relembrar o prazer da leitura e a angustia das idéias. “A escolha da madrugada foi “Na Sombra da Maioria Silenciosa” de Baudrillard, mas enquanto olhava para a capa branca do livro a única coisa que lhe veio à mente foi a celebre, mas não tão conhecida, frase de George Orwell:” Se quiser uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando em um rosto humano para sempre". Olhos reviram. Sono e embriagues de peso titânico. Olhos se fecham. O corpo desaba.
A porta se abre lentamente para o garoto, que a trespassa esquecendo a escuridão opressiva deixada para trás. Por dentro a mansão é um lugar gigantesco não em altura, mas em comprimento, com corredores quase infinitos cheios de quartos. Andar ali é como estar perdido no tempo e espaço. Sensação perpetua de não ter controle para onde se esta indo. Ainda mais estranho são as portas dos quartos, algumas sem numeração e maçaneta outras com números riscados e muito bem lacradas.
A criança caminha sem rumo e sem compreensão do que estava acontecendo, estava sendo guiado pelo acaso ou pelo destino até um rumo qualquer. Suas pernas apenas seguem a vontade do desconhecido e o impulso dos curiosos. Finalmente os corredores deixam de ser preenchidos pelo ecoar de passos. Pequenos pés em frente a uma porta negra, envelhecida, entre aberta, sem numeração especifica e dotada de um magnetismo irresistível. Se aproxima lentamente, movido pela sua curiosidade e repelido pelo medo do conteúdo daquele quarto. Resistindo ao choque continuo de seus calafrios abre a porta lentamente, liberando um ranger rouco e abafado, se deparando com um quarto vazio, mas ainda assim deu os últimos passos para dentro. A porta se fecha violentamente. Um trovão entre paredes.
No escuro pequeno palco se ilumina revelando duas entidades humanóides, assexuadas de feições abstratas e cor amalgamada de joelhos ao chão. Engrenagens em suas nucas começam a girar movendo fios e juntas. Ambas se levantam de forma desajeitada. Face a Face. Suas mãos se estendem buscando o calor de outro ser. O afago de outra existência. A necessidade da certeza que a solidão nunca é eterna. Mas não encontram nada além do vazio egocêntrico de quem não possui nada a doar, apenas e limitadamente a exigir, a desejar. Uma frieza de tamanho incalculável.
Dedos se tornam garras. O toque se transforma em violência que dilacera fina película de pele, revelando conteúdo incompreensível de artérias putrefatas e sangue colérico fervente e incessante jorrando pelos machucados incuráveis e as cicatrizes mal cuidadas. Com olhos vazando uma mistura aquosa de lagrimas e sangue os autômatos param seus movimentos e deixam seus corpos atingirem o chão, os transformando em frangalhos. Engrenagens param de girar. O escuro reina.
De forma súbita a luz se refaz dos olhos puxados de uma pequena menina em meio a fumaça e ao cheiro de carne queimada. O mundo, as plantas, os animais e até o seio de sua mãe, que a aquece em meio ao frio das cinzas, tem o cheiro da morte. Ela se encolhe nos braços de sua progenitora, que tenta esconder suas lagrimas e desespero cantando antigas canções de ninar, pedindo a Deus, qualquer um deles, uma chance de vida. O frio vai embora dando lugar a uma súbita massa de calor e luz. Os sons de sirene se tornam mudos e os odores se dissipam em meio a sopro de vento quente. Maravilhada a pequena menina engole seu choro e estica os braços, escapando do afago protetor de sua mãe, buscando sua própria vida. No seu rosto um sorriso alegre, nos seus olhos a esperança, em seu coração o maravilhar, na sua mente alguém ouviu sua suplica e assim a luz a tudo abraçou. Da menina e sua mãe sobraram apenas as cinzas e o negativo impresso nas sobras de uma parede qualquer, uma pequena sombra de braços abertos esquecida no tempo.
Ali esta ela, sentada em seu canto escuro de parede, olhando fixamente para a porta lacrada do que deveria ser seu quarto. Quantas vezes, quantas horas, quantas noites esteve ali sentada ouvindo os gritos no andar de baixo, seguidos sempre por uma sequencia de sons angustiantes: "Gritos, coisas quebrando, gritos, portas sendo fechadas violentamente, gritos, carro sendo ligado, choro, carro acelerando", sem jamais pode fazer algo além de abafar seus ouvidos com as mãos e morder seus lábios, para não deixar o choro escapar. Na manha seguinte tudo estavam sentados ao redor da pequena mesa comendo pão com manteiga, ovos e achocolatado. Sorriam e jogavam conversa fora. Mas a menina ja sabia que terminaria esse dia como tantos outros, encarando uma porta.
Alguns anos depois afundava sua cabeça contra um travesseiro e gritava o mais alto que podia, mas jamais voltou a encarar a porta ou a se tremer em um canto de parede. Após uma década apenas ligava seu som portátil no volume máximo, fechava os olhos, fingindo estar em outro lugar, e enxugava a leve umidade em seus olhos.
Sentado em seu canto de parede escuro, o garoto apenas chora e mergulha seus pensamentos nos rios de sangue, encharcando seus olhos de lagrimas silenciosas. Mais uma vez a pequena caixa se abre: "Sofrer é quase um destino, você sabe muito bem disso. Mas o interessante são essas pequenas engrenagens que movem a tão amada humanidade. Deve ter sentido uma tristeza nos últimos momentos da pequena menina, mas se soubesse que seu pai, em um país não tão distante, escravizou outros povos, estuprou mulheres, fuzilou crianças e velhos sentiria o mesmo pesar? Por mais que diga, o fardo das decisões dos velhos sempre recai nas costas de suas crianças e assim mais engrenagens começam a girar em ritmo sincrônico, digno do mais exímio relojoeiro.
Não faça nenhum dos seus discursos moralistas, sabe muito bem quantas vidas foram aniquiladas em nome de Deus, da ciência, do amor, do ódio, da democracia, da liberdade, da superioridade, da moral, de toda e qualquer tirania, tudo o que possui é feito de sonhos despedaçados, esperança e sangue coagulado.
Se não acredita, olhe para as pessoas, consumindo umas as outras como um produto qualquer, nunca pensam que podem mudar para melhor, fazê-las crescerem mutuamente. Apenas sugam e se destroçam de forma automata, muito similar a marionetes submissas a uma engrenagem mestra. Continua sem acreditar não é? então coloque as mãos atrás de sua cabeça e pense o porquê de todas as tragédias, no fundo você também sabe, mas prefere simplesmente ignorar."
De maneira temerosa o garoto leva a mão a sua nuca e ao explorar sua cabeça lentamente sente o estranho mecanismo a girar sincronicamente com o seus pensamentos. Assustado, ele grita em meio da escuridão sufocante.



"Em algum lugar no mundo uma criança esta encolhida em um canto de parede confusa, sozinha, amedrontada e as vezes faminta. Milhões de pais são incapazes de perceberem, a maioria simplesmente não querem, as suplicas silenciosas de suas crianças apedrejadas. O lar não passa de uma bolha alimentada pela bem aventurada ignorância, já que qual pai deseja saber que são incapazes de dar a felicidade que sempre sonharam para

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