Um corpo solitário se encontra largado em gramado caloroso. Sob a sombra de uma mangueira de tamanho majestoso. Abra os olhos menino, se dispersa da grama solitária e da sombra aconchegante e olhai o céu, olhai aquilo que descansa atrás das tuas pálpebras cansadas e dos teus sonhos desconfigurados. O pequeno ser se levanta cambaleante removendo o selo de seus olhos e observa além de sua sombra. Céu de brilho esplendoroso. Um sol que se esconde outro que se revela. Estrelas a nascer e tantas outra a morrer, em uma explosão de poeira cósmica multicolorida que alimenta o berço do universo. Maravilhado o garoto tira de sua pequena caixa um diminuto, porém, significativo fragmento de realidade: "Nós todos somos conjunturas atômicas, pequenos fragmentos de vida unidos em organelas em prol da existência. Se o big bang realmente aconteceu, creio que todos nós um dia já fomos uma única existência, deve ter sido tão solitário e ao mesmo tempo não conhecíamos o sofrimento, talvez, quem sabe, nós éramos deus"
Uma voz suave, de tom quase materno, interrompe o fluxo de sorrisos e lagrimas daquele céu estupefante. Menino, olhai pra quem tu é. Olhai para os eternos significados e vê onde teu sorriso nasceu, teu chorar descansa, tua alegria reside, teus medos se escondem e tua tristeza canta. De olhos fechados a criança se encolhe e encontra um pequeno ponto de forma familiar no espaço mais distante na escuridão de suas pálpebras. Se esforça de braços esticados, de passos atrapalhados, com o coração retumbando e lábios dormentes na tentativa de abraçar aquele lugar perdido em sua escuridão.
Cansado e nas profundezas de seu vazio o garoto caminha sempre de olhos fechados em busca do pequeno ponto de calor. Joelhos vão ao chão. Mão tremula esticada clamando por seu destino. Tão longe. Tão cansado. Vento que corta. Treva que atormenta. Vazio tão gélido que cerra os dentes e atravanca maxilar. Sofrer imaginário que tortura a vontade da pequena criatura. A consciência se esvai. Coração perde forças. Olhos permanecem cerrados. Morte fantasiosa de neurônios destroçados.
Pequena caixa que estremece, em pequeno surto de realidade, se mostrando de forma compulsiva quase indesejada e de vontade própria.
"Sabe, poderia apenas abrir meus olhos, dizer adeus a este meu pequeno ponto, que a maioria das pessoas chamariam de esperança. Não vejo exatamente assim, esperança nunca lhe deixará morrer, mas dificilmente fará toda a dor sumir. Ainda assim estamos todos sozinhos quando fechamos os olhos todas as noites e rapidamente abrimos pelo simples medo de morrer, para olhar para um mundo que de certa forma nos aceita e de outras tantas nos oprime. É como acordar de um sonho tão bom que o mundo é apenas um ciclo de sofrimento, mas ao mesmo tempo é bom saber que depois dos pesadelos algo estará nos esperando aqui fora. Mas o que realmente acho é que preciso morrer mais um pouquinho ou talvez aceitar que já estou morto a muito tempo e assim, talvez, consiga ver o horizonte além da escuridão dessas pálpebras"
Iluminar de girasóis. Doce cheiro de violetas. Calor terno. Acariciar de vento matinal. Olhos se abrem assustados. Corpo que se ergue de volta a vida. A sua frente uma grande mansão rodeada por enorme jardim de plantas conhecidas, desconhecidas, inomináveis, inexistentes. Janelas a reluzir apenas o reflexo de incertezas imediatas. Pequena mão a bater em gigantesca porta de madeira ao ritmo de um coração apaixonado. Não se ouve mais a madeira, apenas o coração gritante do angustiado menino que intoxica seus ouvidos a cada nova batida, seja com o punho ou com o coração.
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