Sentada em alto pedestal, mãos pequenas, dedos finos a pincelar, a desenhar, cores firmes, tons inexistentes, contornos disformes, pouco a pouco dentro de um molde infindável, talvez até inimaginável. Corpo largado sobre próprio peso, face emburrada, lábios cerrados, pernas inquietas, ainda falta a perfeição no maravilhoso. A imagem vira borrão. A pequena desce e caminha inquieta e sem rumo, se senta e olha o vazio branco, ou a construção imaginaria, seus dedos anseiam pela dança em tela branca. Mas olhos pesados, costas cansadas, e peito apertado lhe pedem descanso. Assim se deixa cair em constructo de nuvens e abraça outro mundo.
Horas, dias e talvez meses venham a passar. Acorda. Mãos ansiosas em sua delicadeza, pequenos dedos inaudíveis a cantar e assim oitenta e oito teclas dão voz a sua melodia. Emburrada descansa o queixo em mão inerte. Olhos nas paginas ignora toda a simbologia. Só vê o branco. Quer existir em acordes, tons e sinfonia. Cansaço falho de autocrítica cruel lhe atira na cama fecha os olhos se odeia, se ama, até no sono cair.
Dessa vez sonha. Patos voam, mas não tão bem. Patos nadam, mas não tão bem. Patos pescam, mas não tão bem. Se sente pato que sabe pintar, mas não tão bem. Se sente pato que sabe tocar, mas não tão bem. Se sente pato que sabe pensar, mas não tão bem. Delírio novo, longe no céu, caminho longo até a lua e la embaixo apenas pequenos pontinhos. Ali entre nuvens e estrelas sente a solidão de quem ainda não chegou ao destino e não possui companhia. Teme continuar a viagem e as estrelas não bastarem como companhia. Teme voltar e não ser ninguém ou talvez apenas mais alguém.
Acorda e chora em prantos, raivosa, incerta. Senta em seu costumeiro banco entre teclas, linhas, pensamentos e para. Apenas observa.
Menina dos sonhos, menina de sonhos. Pequenos pés a caminhar deixando pegadas em areia fina que o mar do tempo há de apagar. Teima a baixar os olhos para medir a profundidade dos seus passos, que acaba perdendo a beleza do caminho, as promessas do horizonte. Seus dedos querem dançar, querem cantar, sua idéia te escapar. Abraça o peito, o coração, aquieta os temores, se divirta com o seu pulsar.
Viva a vida pela sua vida, não por fins ou começos, carências ou egocentrismos, apenas pelo prazer das linhas, melodias e pensamentos, tudo junto em um só momento.
Obs: Dedicado a uma trollzinha de clava atômica
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